quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O mistério da morte no mistério de Cristo

É no mínimo insólito que alguém dedique tempo e energia para refletir sobre algo cuja realidade a mente procura armazenar em um ambiente o mais obscuro possível. Numa sociedade de luz, de cores, de muitos e intensos rumores, onde o mito do sucesso, do bem-estar e a filosofia da imagem se tornaram hegemônicos, não existe espaço para a reflexão sobre a morte. Esta é apenas um fato inevitável sim, mas desesperadamente inaceitável. Mesmo quando é exigida como um direito – como é o caso das lutas pelo direito à eutanásia -, se observamos atentamente, o é por temor da mesma, de sua imprevisibilidade. Teme-se o descontrole, a impotência diante da morte e se pede não a morte mas a capacidade de decidir sobre ela e libertar-se da angústia de sua certeza e da imprecisa ciência de sua chegada.
Estamos acostumados em nosso tempo a dar explicações racionais detalhadas sobre todos os fenômenos da vida, à morte, contudo, apesar das tentativas de decifrá-la, permanece sempre o limite de sua total ausência de significado racional: se nos apresenta insana a ideia do morrer. Quando nos referimos à morte nos vem imediatamente em mente o vazio que ela cria, de modo que a esta se faz presente ao nos confrontar com a ausência de quem amamos, de seu afeto, histórias, tom de voz, significados, etc. Como encontrar sentido para esta total e definitiva ausência dos seres amados e até de nós mesmos?
A fé cristã nos convida a perceber a morte como um mistério a ser contemplado à luz do Mistério de Cristo, de fato, morrer para o cristão significa incorporar-se plenamente e definitivamente a Cristo e por isso mesmo pode dizer com S. Paulo: “Para mim viver é Cristo e morrer é lucro” (Fl 1,21). No batismo somos já imersos na morte de Cristo para participarmos de sua Vida imortal. Deste modo, é o amor de Cristo a nos dar o sentido da morte, não nas categorias da ciência moderna, experimental, mas como mistério a ser contemplado tal qual o seu amor testemunhado eloquentemente em sua morte de cruz. Afinal, como afirmava o escritor alemão Thomas Mann, “é o amor, não a razão, que é mais forte que a morte”.
Neste dia cheio de saudades, de memórias e lágrimas, curvemo-nos diante do mistério da morte para contemplar a vitória de Cristo na vida de cada um daqueles que foram tocados por sua vitória na Cruz. A morte não nos deve ferir ou amedrontar se nos refugiarmos no amor de Cristo que é O Vivente. A saudade de quem amamos é “óleo de presença” lançado em nossas chagas de ausência, para que a suavidade das lembranças nos nutra a esperança do reencontro definitivo em Deus. Proclamemos com S. Inácio de Antioquia: “há em mim uma água viva que murmura e que diz dentro de mim: Vem para o Pai”. Longe, pois, de ser ausência de sentido, a morte em Cristo lança sobre a vida o seu significado mais profundo e sustenta toda a existência como sendo edifício construído sobre o alicerce do amor  e que, paradoxalmente, se realiza à medida em que se doa e se gasta como a chama crepitante no altar de Deus. “Louvado sejais, meu Senhor, por nossa irmã, a morte corporal, da qual homem algum pode escapar. (...) felizes aqueles que ela encontrar conforme a vossa santíssima vontade, pois a segunda morte não lhes fará mal” (S. Francisco de Assis). O Senhor enxugue as lágrimas de todos os corações saudosos com o “lenço” bendito da Esperança e acolha a todos os nossos irmãos falecidos com o abraço regenerador de sua infinita e insondável Misericórdia.
Pe. Edson Bantim





quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Missão e Vida Cristã

A Igreja, nos últimos decênios, apesar das inúmeras intervenções do magistério oficial acerca do anúncio do Evangelho, tem perdido, consideravelmente, a sua identidade missionária, sobretudo, no que concerne à difusão dos valores que emanam da Palavra de Deus e que caracterizam a Vida Nova e o Reino anunciado e testemunhado por Jesus Cristo.
O imenso avanço do individualismo e sua incidência sobre a forma mentis das novas gerações, bem como das novas formas de fundamentalismo e de “cristianismo gnóstico”, fez com que a missão e a salvação cristãs fossem compreendidas de modo intimista e referidas unicamente ao indivíduo, ou seja, desprovidas de um conteúdo social.
Ademais, ocorre em nossos dias, uma forte separação entre anúncio do conteúdo do kerygma e vida privada dos cristãos, como se a Boa Nova cristã não fosse mais que uma simples informação, sem algum valor incisivo sobre o comportamento e a perspectiva de vida daqueles e daquelas que se auto-identificam como cristãos. Tal situação produz uma profunda crise de sentido nos membros da comunidade cristã ao passo que desprovê de significado para o mundo o próprio evangelho e a vida que dele emerge.
O recente Magistério da Igreja, observando a distinção feita por João XXIII por ocasião da convocação do Concílio Ecumênico Vaticano II entre a substância do anúncio cristão e a formulação de que se reveste para tornar-se compreensível e fiel ao espírito do Evangelho[1], tem procurado despertar a comunidade dos fiéis para o seu dever de encontrar, com o auxílio do Espírito Santo e o esforço dos teólogos, o caminho correto e a linguagem adequada para a comunicação, em maneira nova, das verdades eternas reveladas na pessoa de Jesus Cristo.
Em Evangelii gaudium Francisco alerta para o fato de que, “por vezes, mesmo ouvindo uma linguagem totalmente ortodoxa, aquilo que os fiéis recebem, devido à linguagem que eles mesmos utilizam e compreendem, é algo que não corresponde ao verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo […] Deste modo, somos fiéis a uma formulação, mas não transmitimos a substância”[2]. Tal dissonância entre substância e formulação é superada quando compreendemos a metodologia da “saída”, que ao mesmo tempo em que recupera a intimidade da comunidade cristã com o seu Mestre, reconstrói a própria identidade eclesial de “povo de Deus em caminho”.

A intimidade da Igreja com Jesus é uma intimidade itinerante, e a comunhão ‘reveste essencialmente a forma de comunhão missionária. Fiel ao modelo do Mestre, é vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo. A alegria do Evangelho é para todo o povo, não se pode excluir ninguém[3].

A Igreja, como compreende papa Francisco, é uma comunidade de testemunhas em saída. Esta saída deve ser entendida não somente no sentido geográfico, mas, sobretudo, no sentido existencial e moral. Sair significa em um primeiro momento submeter-se ao processo de Kénosis ao qual se submeteu o Senhor e, em seguida, encontrar o outro, compreendê-lo como realidade inerente à nossa própria existência e dar-lhe um significado.
Deste modo, a questão do sentido em teologia moral ganha um espaço de desenvolvimento. A significância do discurso ético se encarna nas narrativas da vida cotidiana e na experiência moral dos homens e mulheres que o discípulo missionário encontra pelo caminho. A halakah cristã se torna um caminho a ser percorrido na companhia dos irmãos. Mais que isso, se torna lugar de encontro com outros irmãos e de partilha de experiências de vida que ao mesmo tempo em que são enriquecidas pelo anúncio explícito do Evangelho, enriquecem o missionário confrontando-o com os desafios próprios de cada caminho. É, portanto, no encontro com os caídos à margem dos caminhos da história, que os discípulos de Cristo constroem e reafirmam a sua identidade de “próximos” da humanidade, de irmãos do Senhor que se encarregam, em primeira pessoa, da defesa da vida e da dignidade de todos e cada um de seus semelhantes.
Evangelii gaudium põe as bases para uma nova eclesiologia, bem como para uma nova compreensão da missão e da moral da Igreja. Francisco conjuga práxis cristã com anúncio missionário, compreendendo anúncio como testemunho coerente do Evangelho e este último como sendo a atitude de saída até às periferias do mundo e da existência humana para carregar sobre si as feridas da humanidade e encontrar, através do esforço comum, o óleo da consolação que alivia e restaura as forças de cada caminhante. Deste modo, afirma Francisco, “o conteúdo do primeiro anúncio tem uma repercussão moral imediata, cujo centro é a caridade”[4].

a) Dever de caridade para com toda a criação
O imperativo da missão é entendido em sentido abrangente[5], ou seja, compreende-se como destinatários da ação do missionário, não somente as pessoas mas todas as obras da Criação. Desta forma, Papa Francisco propõe, em Laudato si um compromisso para com a proteção e o cuidado para com a Natureza como lugar sagrado de convivência humana, casa comum de toda a humanidade e de todos os seres vivos.

Se, pelo simples fato de serem humanas, as pessoas se sentem movidas a cuidar do ambiente de que fazem parte, ‘os cristãos, em particular, advertem que sua tarefa no seio da criação e os seus deveres em relação à natureza e ao Criador fazem parte da sua fé’[6].

A missão assume, portanto, cada vez mais o caráter de compromisso com o testemunho de vida cristã, entendida como serviço a todos e cada ser humano, bem como ao ambiente no quel este vive e se realiza. É a práxis cristã que constitui o lugar de proclamação da Boa Nova de Jesus Cristo. Não se pode pensar, na perspectiva da eclesiologia de Francisco – que segue aquela eclesiologia de Gaudium et spes e Lumen gentium – um anúncio missionário sem a devida conversão aos valores fundamentais do Evangelho de Jesus Cristo.

b) Pecados contra o compromisso missionário
Para que cumpra a sua missão a Igreja deve evitar três pecados assinalados por Francisco no número vinte e três de Evangelii gaudium: a demora, a repugnância e o medo[7]. Estes três pecados contra a missionariedade são a razão pela qual a Igreja e os cristãos individualmente, perdem sua credibilidade, sua autoridade moral e seu significado para o mundo, devendo, pois, ser superados e vencidos em suas raízes.
O grito dos pobres, dos excluídos econômica e socialmente chega aos ouvidos de Deus e o Senhor, desde a “sarça ardente” (cf. Ex 3,1ss) de nossas consciências, nos envia a libertá-los. Este envio não admite retardos, não permite demoras, não suporta a preguiça e a tibieza. Urge portanto, uma resposta concreta dos cristãos ao chamado de Deus para a missão de ser testemunhas de seu Reino.
O magistério de Francisco exprime esta urgência ao mesmo tempo em que, sem demoras, responde às necessidades deste nosso tempo. Todo o ministério do sucessor de Pedro está profundamente marcado por esta urgência missionária e salvífico-libertadora. Cada gesto, cada homilia, cada escrito está marcado por esta necessidade de resposta ao clamor do mundo, sobretudo dos pobres e marginalizados.
A missão cristã não pode ter repugnância das feridas dos pobres e pecadores. Se elas são fétidas, assim o são apenas pela longa nossa atitude de indiferença. Cabe agora à Igreja oscular tais chagas como se as mesmas pertencessem a Cristo. De fato, foi o próprio Senhor a afirmar que “tudo o que fizermos a um destes pequeninos é a ele que o fazemos” (cf. Mt 25, 40) Muitas vezes o sucessor de Pedro, desde o início de seu pontificado, desceu às periferias geográficas e existenciais e tocou as feridas da humanidade sem delas nutrir qualquer repugnância, ao contrário, versando o óleo da caridade que atrai o olhar dos pecadores à misericórdia, suscita no coração dos perdidos a esperança e comunica à multidão de mortos por causa do mal que subjuga o mundo, a Vida Nova que Ele conquistou para nós no altar da Cruz.
Por fim, o anúncio cristão deve superar qualquer sentimento de medo que submete as consciências e provoca inércia na difusão da Boa Nova de libertação que emerge da vida em Cristo. A covardia dos medrosos é, por vezes, mais danosa ao Evangelho que a ação dos inimigos de Cristo. De fato, o medo é o princípio da indiferença. Por temor aprendemos a não olhar para as sombras que cada vez mais se aproximam e se nos sufoca. Faz-se necessária a intrépida proclamação da liberdade para a qual Cristo nos libertou (cf. Gl 5,1) através de um corajoso testemunho de vida e de amor a Deus e àqueles pelos quais entregou seu Filho.
A Igreja de Cristo é, por sua natureza, uma comunidade de testemunhas e de missionários em saída apressada para acolher e sanar, com aquela ternura e coragem próprias de seu Mestre, as feridas de todos os homens e mulheres de todos os tempos, bem como de toda a obra da Criação, fruto do amor transbordante e misericordioso de Deus.
A perspectiva eclesiológica de Francisco põe a Igreja de volta sobre os passos de Jesus, o missionário do Pai, ao mesmo tempo em que desperta a consciência de cada cristão para a necessidade do testemunho de vida coerente com os valores do Evangelho. Esta, de fato, é a forma mais eloquente de anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo.
Ao discípulo missionário, filho da Igreja, cabe enfrentar a indiferença em relação à dignidade da vida humana e natural com o testemunho de fidelidade a Cristo em seu amor oblativo pelo projeto do Pai. Deste modo, o fiel cristão procura tornar significativos os valores do Evangelho através dos sinais que este realiza em sua própria vida.
O empenho missionário, na perspectiva de Francisco, consiste em um profundo amor pelo ser humano e consequentemente por todas as obras da criação, de forma que em cada missionário da Igreja resplandeça a face de Jesus, o rosto misericordioso do pai[8]. Trata-se de um amor que impele à saída apressada e corajosa para encontrar todos aqueles que constituem os prediletos de Deus, os pequeninos do Reino, com os quais o Senhor mesmo se identifica.
De sua parte, a teologia moral deve compreender sua missão como referida ao compromisso com o mundo e com o Evangelho. Faz-se cada vez mais necessária a superação de uma moral intimista, referida unicamente ao indivíduo e à sua vida privada para entende-la no contexto mais amplo da vida humana e natural, das questões sócio-política-econômicas e ecológicas.
Aqui, portanto, não consiste em uma simples reflexão sobre realidades que se nos põe diante dos olhos, mas da realidade mesma do ser humano de nosso tempo que se encontra tecida na complexa rede das existências, de modo que o teólogo moralista deve pensar-se inserido nesta rede e não como um observador indiferente. É nisto que se encontra a novidade do magistério de Francisco, ele não fala ao mundo a partir de sua “cátedra” ele fala ao mundo a partir das próprias realidades às quais se dirige. Mais que um mestre, se faz companheiro, co-discípulo que procura entender a vontade do único Mestre e intuir o modo mais coerente de realizá-la. É a lição mais urgente e mais decisiva de nosso tempo. Dela depende a credibilidade do anúncio cristão e a legitimidade dos valores evangélicos.
 Pe. Edson Bantim













[1] João XXIII, Discurso inaugural do Concílio Vaticano II. (11 de outubro de 1962), VI, 5. In AAS 54 (1962), 792.
[2] EG, n. 41.
[3] EG, n. 23.
[4] EG, n. 177.
[5] Cf. EG, n. 179.
[6] LS, 64.
[7] Cf. EG, n.23.
[8] Francico, Misericordiae vultus, n.1.

domingo, 21 de agosto de 2016

Bem-aventurada aquela que acreditou!

Isabel exprime com clareza a bem-aventurança mariana. De fato, o que torna grande a Santa Virgem Mãe do Senhor é a sua fé inquebrantável. Maria permanece fiel e crente até o momento mais extremo. Na cruz sua fé é posta à prova, mas o seu amor sustenta sua fé e a Virgem da Esperança viu realizar-se aquilo que o Senhor lhe prometera.
Maria se torna mestra da vida de fé. Modelo sublime de escuta e vivência da Palavra.
A verdadeira devoção mariana é, pois, aquela que se baseia na imitação da Virgem Maria em sua fé inabalável. Quando a devoção é constituída apenas de ritos e orações vazias de vida, falta o Espírito que fez de Maria a Toda Agraciada e a nossa devoção a Maria se torna insulto à sua vida de "humilde serva" do Senhor, a Mulher que Acreditou, diferente daquela que "não acreditou" na Palavra. Maria nos conduz a Jesus sendo exemplo mais perfeito de fidelidade a Deus.
Que o Senhor envie sobre nós o seu Espírito para que possamos ser-lhe fiéis em nossa vida de modo que cada nossa escolha seja resposta corajosa ao Amor infinito do Senhor que se compromete conosco até a morte. Mãe de todos os homens porque mãe do verdadeiro Homem, no qual todos encontramos a Verdade mais profunda sobre o humano. Maria, mãe consoladora nos acalente em seu coração materno para que as dores e aflições deste tempo não nos afastem do verdadeiro amor e da verdadeira vida.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Perdão e auto-justificação!



"Dá-me um prazo e eu te pagarei tudo!" (Mt 18,26)
A experiência da misericórdia infinita de Deus só é possível diante do reconhecimento de nossa total incapacidade de auto-justificação. Jesus põe o perdão aos inimigos como um dos elementos que identificam os seus discípulos, porém, não pode perdoar quem não experimenta em si mesmo a necessidade e o efeito do perdão gratuito de Deus.
O empregado da parábola de Mateus não pede que o patrão tenha misericórdia e o perdoe. Ele imagina que com um pouco de tempo disponível pode pagar "tudo" ao patrão e não ficar-lhe devendo "favores", por mais que o evangelista tenha alertado que a dívida custaria o preço de sua vida e da vida de sua família, bem como de todos os seus bens. A ilusão de poder auto-justificar-se não deixou que aquele empregado compreendesse quão grandiosa foi a generosidade do patrão e, portanto, não conseguiu reproduzir tal amor quando se encontrou na mesma situação com um companheiro que lhe devia uma pequena quantia.
A maioria das pessoas não consegue perdoar ou acolher com generosidade a fragilidade dos irmãos porque nunca experimentaram tal amor. São de tal modo arrogantes que o orgulho se lhes endurece o coração e não se permitem ser amados gratuitamente. Os mesmos se pensam tão dignos do amor que não percebem que o amor não é uma mercadoria que compramos com nosso mérito, mas é dom total de um coração generoso. O perdão não pode nascer em um coração orgulhoso e prepotente ele é fruto da árvore bendita da humildade do coração de quem se sabe sempre necessitado da Graça infinita do Deus-Amor.
Que o Senhor nos fortaleça com seu Espírito para que compreendamos quão grandiosa é a sua misericórdia para conosco e, experimentado o amor generoso do Senhor, possamos nos tornar instrumentos de misericórdia e perdão na vida de nossos irmãos e irmãs.


domingo, 7 de agosto de 2016

O pequenino rebanho de Jesus!

"Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino." (Lc 12,32)
Jesus chama de pequenino rebanho aqueles que lhe permanecem fiéis não obstante as dificuldades, por vezes demasiado pesadas. O rebanho de Jesus é pequenino. Ele não procura e nem tem muita confiança nas multidões. A multidão é manipulável, segue o pregador do momento, dá atenção a quem grita mais alto e só ouve o que lhe convém. O pequenino rebanho de Jesus lhe é sempre atento. Conhece a voz do Pastor e não desvia o olhar de sua cruz, testemunho mais alto de seu Amor.
Vivemos um tempo de descartáveis... cultura líquida, diria o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Líquida porque adaptável, completamente e exageradamente "flexível", ao ponto de não possuir alguma identidade reconhecível. O mesmo tem ocorrido com a experiência de fé em Cristo. Cada vez mais se manifesta uma fé "líquida", sem alguma consistência, demasiado abstrata, beirando o gnosticismo dos primeiros séculos. Jesus convida-nos a sermos coerentes com nossa escolha de fé. A fé cristã é um modo de viver, um estilo de vida que se inspira na vida mesma de Cristo e se põe diante do mundo como uma opção clara à mediocridade, em todos os âmbitos sociais, que se tem instalado em nosso tempo. O apelo à vigilância é mais um despertar para a própria natureza do cristianismo, que não constitui-se de ritos ou crenças, mas, sobretudo, caracteriza-se por empreender um modelo de existência plenamente humana e aberta ao transcendente, evitando qualquer autorreferencialismo ou mediocridade moral.
Que o Senhor suscite em nossos corações a capacidade de ir além de um comportamento mediano e nos conceda a coragem de acreditar nos ideais humanos mais elevados e procurar realizá-los em nossa vida, tornando-nos membros deste "pequenino rebanho" que é um sinal de esperança neste mundo marcado pela barbárie cultural e pela perca de confiança no ser humano e no futuro do mundo.

sábado, 6 de agosto de 2016

A oração nos configura a Cristo

Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante. (Lc 9,29)
Hoje  celebramos a Transfiguração do Senhor que, no Evangelho segundo Lucas, se dá em clima de oração! Para Lucas, de fato, é a oração a mover as ações de Jesus. A oração
é o diálogo fecundo do Senhor com o Pai que o enviou para a salvação do mundo.
Para nós cristãos, a oração é a via de acesso ao coração de Jesus, é o caminho de elevação da alma para o encontro com o seu Criador.
A oração nos transfigura. Nos confere a nossa verdadeira imagem. Nos assemelha a Cristo, Filho predileto do Pai. A vida dos cristã se torna estéril e hipócrita quando não é regada e fortalecida pela oração constante. Somos chamados a fazer de nosso dia um hino de Louvor a Deus. Cada hora, diria mais, cada segundo de nossa existência deve estar fecundado com a oração, regada pela misericórdia de Deus que se faz torrente de vida em um coração orante.
A celebração da transfiguração do Senhor deve nos impulsionar à conformação de nossa vida com a Vida de Cristo. Só assim poderemos dizer-nos, de verdade, cristãos.
Cada pessoa batizada em Cristo deve reservar ao menos 15 minutos por dia para dedicar-se à Escuta de Jesus. Eis alguns passos importantes:
1. Escolha um lugar adequado: confortável, reservado, silencioso e onde não possas ser interrompido;
2. Ponha uma música instrumental (Taizé é uma boa opção);
3. Suplique ao Senhor que derrame sobre ti o Seu Espírito. É sempre o Espírito que deve orar em nós, por Cristo ao Pai;
4. Percorra a sua vida e procure perceber os sinais que Deus deixou em sua história desde o seu último encontro orante com Ele. Então, Louve com Gratidão ao Senhor por todas as maravilhas realizadas em ti (podes usar o Magnificat ou uma oração espontânea);
5. Escolha um texto da Palavra de Deus (pode ser um salmo, o Evangelho do dia ou mesmo um outro texto à escolha), leia como quem escuta com atenção, coloque sua vida diante da Palavra e Medite para descobrir o significado desta Palavra em tua vida, neste momento em que estás vivendo;
6. Em silêncio (sob o som da música instrumental) Contemple o Senhor que se apresenta a ti como torrente inesgotável de amor. Deleite-se neste contemplar, aproveite a presença de Cristo, deixa-te consolar e amar por Ele;
7. Em um caderno especialmente escolhido, escreva uma prece ou descreva a tua experiência de oração na presença de Cristo (te ajudará a fixar e a realizar o que experimentaste);
8. Reze a oração do Senhor (Pai Nosso) pausadamente, meditando cada palavra (lembra-te que estas palavras saíram dos lábios de Jesus e agora Ele as põe em teus lábios);
9. Recorra ao auxílio da Virgem Mãe de Jesus (a Mulher Orante) e peça-lhe o dom da comunhão de vida com Cristo;
10. Despeça-te do Senhor e deixe marcado o teu próximo encontro com Ele (é importante marcar o horário e local para te lembrares que é verdadeiramente um encontro entre ti e o Senhor).
Siga estes 10 paços e tenhas um boa experiência de oração.
Que o Senhor nos estimule, pela ação de Seu Espírito, a uma fecunda vida de oração que ressoe em nossa relação com Ele e com os irmãos.


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Um coração que seja puro (Sl 50)

A perpetuação da banalidade e a mediocridade com que a vida humana é considerada em nosso tempo, destituindo-a de qualquer possibilidade de um projeto permanente, leva a uma consideração da "pureza" bíblica como se a mesma fosse um mito, ou mesmo um ideal do qual se fala com entusiasmo em alguns contextos religiosos, mas que, de fato, não a encontramos em qualquer realidade.
A descrença na possibilidade do ser humano de alcançar a "pureza de coração" é a raiz do abandono do espírito humano à corrupção e ao mal. Esta é a forma mais eficaz de destruição do espírito humano: destituir as pessoas da fé em seu potencial de bondade e na sua capacidade de conservar uma dignidade incorruptível.
Para a fé cristã, contudo, a pureza de coração, constitui o caminho mesmo de identificação com o Mestre. Aqui não se trata, como alguém possa interpretar, na "não-pecabilidade", ou seja, na ausência total de queda, mas constitui aquela esperança fundamental na Graça redentora de Cristo que realiza no ser humano a obra originária do Pai pela efusão do Espírito Santo que purifica-nos do mal e nos reveste da beleza moral do Redentor.
Que a súplica do salmista: "Dai-nos um coração que seja puro" não se perca por nossa incapacidade de compreensão do amor de Cristo que nos converte e salve nem por nossa descrença nas capacidades humanas de auto-superação e de construção em si do projeto humano para o qual é chamado pelo criador!
Dá-nos, Senhor, um coração que seja puro. Sobretudo, faz-nos acreditar que cada ser humano pode alcançar, com a tua Graça, o mais alto nível de perfeição, realizando o teu pedido: "Sede perfeitos como vosso pai é perfeito (Mt 5,48).